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ESTAGNEI!

Com dificuldades para melhorar suas marcas? Descubra como detectar os problemas que afetam o rendimento de atletas e as formas para voltar a render o máximo na corrida

Cartão-postal de Londres e lendário pela precisão, o Big Ben funciona perfeitamente graças a um conjunto engenhoso de peças e engrenagens trabalhando em harmonia. Não fosse a sintonia dos elementos que o compõem, fatalmente não seria sempre tão exato na tarefa de marcar as horas. O exemplo serve para ilustrar que, como nas máquinas, o corpo humano funciona como um grande dispositivo, composto de partes interligadas e sujeito a fatores que interferem no resultado final.

Como todo atleta, o corredor busca o bom ‘funcionamento’ de suas engrenagens para obter sucesso na eterna luta contra o relógio. Independentemente de ser profissional ou amador, ou dos motivos que o levaram à prática do esporte, o objetivo é sempre o mesmo: correr mais e mais rápido. Mas, e quando os resultados deixam de aparecer? O que fazer quando, apesar do esforço nos treinos e provas, o atleta fica estagnado em uma marca?

O principal ponto é identificar o que está errado, o que nem sempre é simples. Uma das questões a serem levantadas é se o corredor chegou ao seu limite. “Que existe uma limitação biológica, existe. Vai chegar um momento em que o atleta estará próximo disso. Mas a ciência ainda não tem como determinar”, aponta Charles Lopes, membro pesquisador do Laboratório de Bioquímica do Exercício (Labex), da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). “Existem avaliações físicas nas quais é possível verificar o quanto ele melhorou e o quanto houve de involução. Com isso podemos determinar como está o desempenho”, complementa.

Para a professora Denise Vaz de Macedo, coordenadora do Labex, a grande maioria dos problemas está relacionada ao treinamento, apesar de outros fatores interferirem, como a alimentação e o lado psicológico. “Se você fica no mesmo estímulo, seu rendimento pára. O corredor, nesse caso, tende a perder performance. Quando ocor-re a manutenção dos tempos, pode ser que ele esteja treinando demais, entrando em overtraining e tendo problemas com descanso. Mas acredito que sempre é possível melhorar o tempo, mesmo que muito pouco. Além do treino, da alimentação e da cabeça, é preciso ver o quanto a pessoa está se dedicando ao treinamento”, aponta.

Lopes faz uma ressalva quanto a esse tempo de treinamento. Segundo ele, os treinos de qualidade são mais produtivos que os trabalhos de volume. “Não existe um consenso sobre qual metodologia é melhor. As duas são eficazes. Mas podemos nos basear em exemplos para avaliação. Corredores europeus e da América do Sul priorizam o trabalho de volume. A maioria dos africanos faz o contrário. Pelos resultados, vemos que os atletas da África têm conseguido mais recordes, títulos olímpicos e mundiais”, explica Lopes.

Treinamento

É sempre importante lembrar que todo atleta deve buscar o acompanhamento de um profissional de Educação Física. Um treino não é composto apenas por repetições de uma mesma distância, mas é complexo e variado. Somente com estímulos diferenciados e metodologia, empregada de forma individualizada, o atleta pode obter ganhos reais na modalidade a que se dedica.

Segundo o técnico Emerson Bisan, da Nova Equipe Assessoria Esportiva, é fundamental conhecer o atleta e, após análise, informar suas possibilidades no início do treinamento. “A grande maioria das pessoas que procura orientação trabalha e tem uma rotina diária puxada. É preciso analisar os objetivos, mas a grande parte quer qualidade de vida. De qualquer forma, todos buscam ganhos no desempenho. Então, é preciso verificar, além dos objetivos, como é o biótipo, alimentação, enfim, a rotina”, orienta.

Quando o problema surge, é preciso ter tranqüilidade. “A pessoa tem que olhar para os fatores externos. Pode ser o treinamento, a alimentação, o psicológico. Mas é essencial que o corredor saiba que chega um momento em que naturalmente ele dá uma parada. Principalmente para o amador que não tinha histórico no esporte, existe uma melhora grande no início do trabalho e depois ela ocorre aos poucos”, acrescenta a técnica de atletismo Juliana Gomes, da TPM (Treinamento para Mulheres).

Marco De Lazari, técnico da Ulbra e da Assessoria Esportiva Sub:4, reconhece que um dos problemas que podem atingir o corredor está ligado ao próprio treinamento. “Sempre é preciso ter estímulos diferentes”, ressalta. “Com o amador, o erro mais comum é não mudar o treino. É preciso haver variação. O que não pode acontecer também é a pessoa treinar demais. O descanso é um fator muito importante na corrida”, esclarece. De acordo com o profissional, não basta apenas empregar metodologias diferentes de trabalho se o atleta não sabe o que, nem por que, está fazendo. “É importante explicar o treino, o motivo de estar fazendo isso ou aquilo, além de esclarecer a importância do descanso”, completa.

Alex Olivatto, diretor técnico da Aquário Assessoria Esportiva, endossa esse ponto de vista e lembra da importância da proximidade entre corredor e técnico. Troca de informações e confiança mútua colaboram para que o treino apresente resultados. “Para ocorrer uma mudança efetiva, há necessidade de uma boa conversa, esclarecendo os novos rumos do treinamento, seus métodos e possíveis resultados. O atleta precisa estar o mais próximo de seu técnico, para que ele possa influenciá-lo definitiva e positivamente”, acredita Olivatto.

Alimentação

Sem dieta balanceada, feita de acordo com a realidade individual, é muito provável que o corredor apresente variados problemas, entre eles a estagnação ou a queda no rendimento. “Quando o atleta apresenta má alimentação durante o treinamento, começa a ter problemas de lesão muscular, o corpo não encontra a energia que procura para aquela atividade e, nesse caso, quem sofre são os músculos”, aponta Michelle Martins, nutricionista formada pela PUC-Campinas e especializada em Fisiologia do Exercício pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

De acordo com a profissional, é muito difícil que o próprio corredor atribua a queda no rendimento a um problema alimentar. Daí a importância da avaliação constante por um especialista. “Cada atleta é um caso diferente, mas, de qualquer forma, é preciso que a alimentação desse corredor tenha equilíbrio. Ou seja, sua refeição deve ser composta por 50% a 70% de carboidratos, por até 15% de proteínas e até 25% de lipídios (gorduras)”, explica, referindo-se às grandes refeições (almoço e jantar). Michelle acrescenta a informação afirmando que o ideal é que a pessoa faça de cinco a seis refeições por dia, dividindo-as de três em três horas, por exemplo.

Os cuidados com o que o atleta deve consumir vão além das refeições. Um corredor tem variadas necessidades e, durante treinos ou provas, realiza grandes esforços, com perda de líquidos e sais minerais. Segundo a nutricionista, a reposição desses elementos, principalmente no calor, é de extrema importância, porque pode culminar não só com uma eventual perda de rendimento, mas até mesmo no abandono de uma prova. “Quando o treinamento ou a competição for mais longa, vale consumir isotônicos. O que o atleta deve fazer é se pesar antes e depois da atividade. Aquela quantidade de peso perdida ao final da corrida precisa ser reposta em líquidos, principalmente em bebida esportiva, ao longo do dia.

Quanto à utilização de carboidratos, seja em gel ou em pó, a nutricionista recomenda que ocorra em atividades de longa duração, após 1h30 de esforço, em treino ou prova de intensidade moderada ou alta. Quando a atividade for de baixa intensidade e de curta duração, o corredor deve fazer um lanche até 30 minutos após o término do exercício. Essa refeição deve conter um alimento da família dos carboidratos (pão), um da família dos leites e uma fruta, indica a nutricionista.

Psicologia

O fator psicológico sempre deve ser levado em conta, na vitória e, principalmente, na derrota. O grande problema é desvencilhar o mito de que psicologia esportiva é para atleta ‘maluco’. “Muitas pessoas no Brasil ainda têm preconceito e não sabem da real importância desse trabalho”, afirma João Ricardo Cozac, psicólogo esportivo e presidente da Consultoria Estudo e Pesquisa de Psicologia do Esporte (CEPPE).

Segundo Cozac, um dos fatores a serem analisados no atleta é sua motivação no esporte, se é de competição (alta performance e busca de vitórias) ou de realização (compete para completar a prova). “Temos que avaliar como essa pessoa lida com a atividade. Quando sua motivação é pela competição, seus adversários são os outros corredores. Quando é pela realização, o adversário é ele próprio”, aponta.

Um dos fatores que interferem no rendimento é a proporcionalidade de concentração x ansiedade. “Elas são inversamente proporcionais. Quanto mais ansioso, menos concentrado. Muitos corredores ‘quebram’ quando ficam muito ansiosos e isso passa a interferir no desempenho físico”, explica Cozac.

O psicólogo lembra que é muito comum, em momentos de ansiedade e cansaço, que o atleta tenha ‘pensamentos intrusos’, como de que ele não vai conseguir completar a prova, de que não vai dar conta, por exemplo.

Por incrível que pareça, um problema bastante comum, segundo Cozac, e que interfere no rendimento dos atletas, é o temor de não completar. “Esse medo é, por si só, um dos fatores gerados pela ansiedade. Mente e corpo trabalham juntos. Se a pessoa estiver com um nível muito alto de ansiedade, a concentração é abalada. Sua cabeça cansa e o corpo sente o cansaço”, complementa.

Correr é uma atividade simples e natural. Porém, praticar corrida de forma metódica e organizada para obter resultados exige seriedade, consciência física e mental. Se você está com dificuldades em melhorar a performance, siga as dicas citadas nesta reportagem, oriente-se com profissionais. Os resultados, certamente, voltarão a aparecer.

FIQUE ALERTA
Procedimentos para evitar ou identificar problemas
que afetam a performance esportiva

* Avaliação física periódica
O corredor não deve permanecer muito tempo sem realizar avaliações físicas. Nunca ficar mais de seis meses sem verificar que mudanças ocorreram no
desempenho, seja para mais ou para menos, avaliando-o a cada três meses e de acordo com a planilha de treinamento. “Se a pessoa tiver a planilha alterada uma vez por mês, deve fazer a avaliação todo mês. Ela está interligada com o tipo de treino”, aponta Charles Lopes.

* Aplicar treinamento multilateral
Modificar as formas de treinamento, aplicar diferentes estímulos. A repetição
não gera ganhos no rendimento e o corpo fica adaptado à rotina.

* Descanso
Depende da metodologia de trabalho.
Quando o trabalho realizado for anaeróbio, o descanso deve ser de 48h entre cada treino do mesmo tipo. Quando o trabalho realizado for aeróbio, o descanso pode variar de 48h a 72h para voltar ao treinamento aeróbio.

* Alimentação
Por mais que o treinamento do corredor tenha variações, descanse corretamente e passe por avaliações constantes. Se a alimentação não estiver adequada, seu rendimento tende a ser prejudicado. Procurar o acompanhamento de uma
nutricionista é essencial para a especificação da dieta. O atleta deve fazer de
cinco a seis refeições diárias, com intervalo de pelo menos 3h para manter o metabolismo.
As grandes refeições devem ser compostas por 50% a 70% de carboidratos, de até 15% de proteínas e até 25% de lipídios (gorduras).

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