Efeitos desejados e indesejados dos EAA
Os andrógenos desempenham diferentes funções conforme o período da vida. No período embrionário viriliza o trato genital, desenvolvendo o fenótipo masculino. No período neonatal, provavelmente está envolvido no desenvolvimento de funções cérebrais, determinando os comportamentos masculinos. Na puberdade leva ao desenvolvimento físico, promovendo a virilização externa12.
Apesar de não existirem esteróides anabolizantes puros, como salientamos, já que todos EAA agem em um único receptor que modula de forma indissociável os efeitos androgênico e anabolizante1,2,4, a separação destes dois efeitos pode ser feita com objetivos didáticos. Dentre os efeitos anabólicos, destacam-se o aumento da massa muscular, da concentração da hemoglobina, do hematócrito, da retenção de nitrogênio, da deposição de cálcio nos ossos e diminuição das reservas de gordura do corpo. Dentre os mecanismos anabólicos desencadeados para aumento da massa muscular, incluem-se: aumento da síntese protéica via RNA mensageiro, balanço nitrogenado positivo, inibição dos efeitos catabólicos na massa muscular esquelética, estimulação da formação de osso, inibição do catabolismo protéico e estímulo da eritropoiese. Os efeitos anabólicos ocasionam retenção de nitrogênio, um constituinte básico da proteína, promovendo assim crescimento e desenvolvimento de massa muscular através da uma melhor utilização da proteína ingerida. Esse é um fenômeno temporário devido aos mecanismos homeostáticos do organismo. Os EAA têm efeito anticatabólico sobre os tecidos corporais por competirem pelos receptores dos glicocorticóides que são liberados durante os episódios de estresse dos exercícios intensos. Este efeito contribui para aumentar a massa muscular através da inibição da degradação protéica1.
Os atletas que fazem uso de anabolizantes esteróides deveriam, portanto, saber da importância de manter uma dieta rica em calorias e proteínas a fim de obter o maior benefício possível do efeito anabolizante1,5. Também é importante ressaltar que há discussões quanto a eficácia destes hormônios em aumentar a força física. Nem aumento de peso, nem aumento de força podem ser consistentemente observados quando atletas usam andrógenos em doses farmacológicas em estudos duplo-cego, conforme revisado por outro autor. No entanto, ainda faltam estudos em que a administração dos EAA é feita com um dos padrões habitualmente utilizado pelos atletas, o que poderia comprovar esta eficácia dos agentes em questão19. É reconhecido que os EAA podem aumentar a força muscular através de efeitos psicológicos1, mas existe dúvida se os EAA melhoram a força muscular na ausência de exercícios concomitantes. O aumento da força e da massa muscular deveria, portanto, ser estimulado com exercícios específicos, o atleta deveria ser treinado intensivamente antes do regime com esteróides e deveria continuar o treinamento durante o uso, sempre mantendo uma dieta hipercalórica e hiperproteica1,5.
Os efeitos adversos físicos e psicológicos dos EAA permanecem incompletamente documentados, havendo mais comumente envolvimento hepático, endócrino, músculo-esquelético, cardiovascular, imunológico, reprodutivo e psicológico1, que podem ser divididos em três tipos, conforme detalhamos no quadro 1: efeitos virilizantes; efeitos feminilizantes, mediados pelos metabólitos estrogênicos do esteróide; e efeitos tóxicos, geralmente mediados por mecanismos incertos12.
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Dentre os efeitos virilizantes, salientam-se o aumento da libido, aumento do pênis, tom de voz mais grave, distribuição masculina dos pêlos pubianos, aumento de secreção das glândulas sebáceas e aumento dos pêlos faciais. A acne, comum em usuários, está relacionada ao aumento das glândulas sebáceas e a maior secreção por estas12. Dentre os efeitos virilizantes em mulheres, salienta-se a irreversibilidade do aumento do clitóris e da alteração da voz para um tom mais grave4.
A administração de hormônio exógeno, a partir de 15 a 150 mg/dia, já causa significativa diminuição da testosterona plasmática, intensificando os efeitos feminilizantes. Há atrofia testicular que pode ser irreversível (castração química) e azoospermia por inibição da secreção de gonadotrofina, bem como pela conversão dos andrógenos em estrógenos12. A ginecomastia é freqüentemente irreversível enquanto que o tamanho testicular tende a normalizar após a descontinuação do uso23. A ginecomastia subareolar, que pode ser uni ou bilateral, deve-se a conversão dos estrógenos em estradiol e estrona no tecido extra-glandular. O tratamento médico com agentes anti-estrogênicos como tamoxifen, pode ser tentado para a redução do tamanho e da dor causada pela ginecomastia, mas quando o aumento da mama torna-se um problema psicológico ou estético para o paciente, a mastectomia subcutânea é o tratamento recomendado1,20.
O extenso metabolismo dos EAA orais leva a hepatotoxicidade importante1. A icterícia deve-se a estase e acúmulo de bile em porções centrais dos lóbulos hepáticos, sem obstrução dos ductos maiores e, se ocorre, é geralmente após 2 a 5 meses de uso. Os testes de função hepática como a bilirrubina e fosfatase alcalina mostram-se elevados. A severidade das alterações é dose dependente. As anormalidades na função hepática são geralmente reversíveis com a descontinuação da droga1. A colestase está quase sempre associada ao uso de derivados 17-a-alquilados, mas o mecanismo de ação não está claro. A colestase induzida por esteróides é, usualmente, rapidamente reversível após a parada do uso, raramente perdurando por vários meses21.
Verificou-se também um aumento nas lesões músculo-tendinosas em usuários, explicada pelo aumento da força muscular com concomitante diminuição da elasticidade dos tendões, gerando maior risco de ruptura e distensões1. Os efeitos dos EAA na indução de patologia de tendões, em combinação com exercícios, está bem documentada em experimentos com animais, relacionada com alterações ultraestruturais nas fibras colágenas e acompanhada de alterações nas propriedades mecânicas22.
Os esteróides, particularmente quando utilizados em grandes doses por atletas, podem causar sérios distúrbios do humor, com substancial morbidade para estes e, possivelmente, para as vítimas de sua irritabilidade ou agressão23, havendo uma maior associação entre uso de EAA e personalidade anti-social e narcisismo patológico24. Estudos entre atletas usuários e não-usuários de EAA, demonstraram que os primeiros apresentam maior agressividade, impulsividade e menor cooperatividade do que os demais10. A agressividade, um sintoma muito freqüente, foi implicada em mais de um caso em que usuários cometeram crimes, inclusive assassinatos1,3,23. Não se sabe, entretanto, se há maior agressividade nos indivíduos que usam EAA ou se indivíduos mais agressivos fazem mais uso de EAA, bem como não se sabe se é o uso dos EAA, especificamente ou de outras drogas associadas, que geram tais comportamentos, uma vez que estudantes que usam álcool, tabaco e outras drogas, incluindo EAA, são mais facilmente envolvidos em atitudes imprudentes e comportamento socialmente inapropriado. Alguns estudos sugerem que os EAA podem causar hipomania23 e, talvez, sintomas psicóticos enquanto estão sendo usados4,12. Por outro lado, a sua interrupção determina uma síndrome de abstinência caracterizada por sintomas adrenérgicos e craving (“fissura”)4,25, podendo, além disso, causar depressão maior.
